Estive discutindo, na última semana, o jornalismo e a imprensa em Ribeirão Preto com o companheiro Guiliano Marcos. A entrevista não fui publicada ainda por problemas técnicos – desculpe Giu, meu cabo pifou. Mas, motivado por essas reflexões, resolvi comentar um exemplo de jornalismo e um exemplo de jornalismo de mentira publicado na cidade hoje.
Trata-se do notícia referente a Wagner Rossi (PSBD), conhecido nas rodas maledicentes da política ribeirão-pretana como ladrão do Porto de Santos e pai do Mamífero.
Homem de muito costado, Rossi permanece ocupando cargos de poder, com o controle de muitos recursos, nos últimos 20 anos. Eminência parda do PMDB, é cotado inclusive para ser o próximo ministro da agricultura do Brasil. Atualmente, ele comanda a Conab.
Acontece que o Tribunal de Contas da União (TCU) realizou uma análise minuciosa da situação da Conab (Companhia Nacional de Habastecimento) e constatou diversas irregularidades. Tudo coisa braba. Tive acesso à decisão do TCU e ao voto do relator. Não há margem para dúvidas: a entidade contratou empresas que devem ao governo, um absurdo que contraria completamente a lei das licitações. É improbidade administrativa da grossa.
Não bastasse isso, o TCU indicou desvio de alimentos, má gestão e incapacidade técnica para administrar as produções que a ela são confinadas. Em qualquer pais do mundo um pouco mais sério, são fatos que serveriam para afastar e botar na cadeira – depois de devidos processos legais, evidente – os responsáveis.
E como a mídia reagiu? Vou usar como exemplo o A CIDADE e o Gazeta. Não vi nem Folha nem Tribuna hoje, então diexo de lado as abordagens desses veículos.
A Gazeta, em matéria de Guto Silveira, o grande, fez o jornalismo correto. Um tanto quanto asséptico demais para o meu gosto, mas correto. Disse o que o relatório do TCU indicou, ouviu o Rossi e reproduziu os fatos. Veja a matéria aqui
No lado oposto, o A CIDADE preferiu um jornalismo de mentirinha. Destacou o fato apenas em coluna. Deixou de fora do notíciario, portanto, um escândalo nacional protagonizado por uma cria de Ribeirão que comanda mais de R$ 5,5 bilhões em Orçamento e que deve ser o próximo ministro.
Não bastasse a decisão editorial – pra lá de constestável – o Jornal ainda coloca Wagner Rossi como bom moço da história. Diz a nota que o relatório mostrou “uma estrutura sucateada, controle precário de ativos armazenados e diferença nos volumes cotabilizados pela matriz da estudual e superintendência regional dos Estados”.
Faltou dizer que Rossi comete crime ao contratar empresas que devem ao fisco, assim como faltou dizer, também, que o relatório aponta claramente problemas de gestão. E que há desvios de alimento feito pelas próprias empresas contratadas. E, para sair do TCU, que a Conab patrocina crimes eleitorais pelo Brasil inteiro, como ficará provado em breve.
Pior que isso. O jornal dedicou mais quatro notas e uma foto ao assunto. A segunda, logo abaixo da foto, dá conta de que Rossi disse ter reunido seu alto escalão para resolver a pendenga.
A terceira, uma aspa de Rossi dizendo que as recomendações do TCU são para melhorar o controle na Conab, que era precário por práticas que datavam de há muito.
Na quarta, mais aspa de Rossi, dizendo que o relatório do TCU não aponta indícios de qualquer procedimento ilegal.
E, pra fechar com chave de ouro, uma notra dizendo que ele é o mais cotado para ser ministro da Agricultura com o afastamento do atual mandatário. Coisa que ele nega e diz que nunca ninguém do governo o chamou para falar sobre esse assunto.
Oras bolas, uma escândalo absurdo de picaretagem na Conab transforma-se, na visão do colunista e do jornal, em um simples problema administrativo. E o maior bandido que Ribeirão já produziu – em concorrência dura com um petista que também já foi ministro – passa a ser um cara de bem, que quer resolver os problemas e que, veja você, será ministro.
Faça-me o favor! Mais do que jornalismo ruim, que podemos aceitar, trata-se de empulhe, enganação, picaretagem mesmo, desrespeito claro e sistemático ao leitor.
O relatório é claro. Está aqui, para quem quiser ler. Lá, vai reparar que existe, sim, crime detectado, com a contratação de quem deve ao estado. Vai perceber também que existe crime de gestão e desvio de alimentos. Vai perceber que o culpado de tudo isso é o senhor Wager Rossi, vulgo ladrão do Porto de Santos, que compra mansão de usineiro e é um dos pares da República. E também pai do mamífero.
Para quem quiser, a cópia da análise do TCU: Conab



