Arquivo do mês: abril 2011

Sobre o plágio – caso Gabriela Yamada

Bom, galera, acho que é hora de acabar com as férias. Passei alguns dias – meses, na verdade – sem postar por aqui, mas creio que essa onda chegou ao fim. Precisava de algum tempo para colocar algumas coisas em ordem. Embora não tenha resolvido um quarto do que precisava, acho que é a hora de voltar a escrever. E, como não gosto de temas fáceis, vamos ao que agitou a imprensa de Ribeirão Preto: o famoso caso do plágio da jornalista Gabriela Yamada ao blog de uma jornalista de São Paulo.

Primeiro, vamos por partes.

Fui o último a saber dessa pendenga. Na semana em que tudo ocorreu, feliz ou infelizmente eu estava, alegre e sorridente, gastando uma semana inteirinha em uma pescaria no rio Paraná, em Castilho, divisa com o Mato Grosso. Cheguei em Ribeirão no sábado e permaneci desconectado do mundo até segunda-feira, dia 25 de abril.

Foi quando um amigo, irmão mesmo, Ygor Salles, hoje na Folha, veio me pedir a capivara “de uma tal Gabriela Yamada”. Inocente, imaginando que a pergunta se devia a uma possível contratação, forneci as informações que tinha e as opiniões que guardava sobre ela.

Depois, veio a pergunta, e a surpresa.

Não vou bater na questão do plágio, nem na guerra via twitter, enfim, imagino que o caso esteja mais que saturado. Mas uma coisa que causou profunda estranheza. Bom, sejamos sinceros. Não posso dizer que meu padrão de ética só mesmo que predomina na imprensa. Acho algumas regrinhas básicas, inclusive, grandes bobagens. Sou das antigas e acho que existem cascatas necessárias. Não vou dizer quais pois não vem ao caso agora.

MAS vale que a maior parte do jornalismo que se faz hoje é cascata, então…

Sintetizando, consigo aceitar algumas premissas que a imensa maioria dos babacas pseudo politicamente corretos consideram inaceitáveis. O lance de copiar uma matéria alheio, por exemplo, embora seja incorreto, pode ser “entendível”. Basta ver a quantidade de releases que são “cozinhados” para publicação. Desde que informe corretamente, pouco importa.

Não que use o expediente. Pessoalmente, prefiro cozinhar os meus próprios textos. Já utilizei matérias antigas praticamente na integra, com a boa e velha atualização, e acho que, se escrevi bem da primeira vez, não há sentido em reescrever. Mas tenho um pouco mais de reserva com os textos alheios. Quando copio, geralmente aviso e gosto de dar o crédito.

O jornalismo hoje é uma coisa tão, mas tão babaca, e está tão nivelado por baixo, que não faz muito sentido, como dizem por ai, gastar vela boa com defunto ruim. Essa imprensa meia boca que domina o Brasil – em Ribeirão, a coisa torna-se milhares de vezes pior, pois, como definiu Mário Rossit, somos a vanguarda do atraso no jornalismo – não tem mostrado condições de criar nada interessante no jornalismo.

Mas vamos às rosas.

Se consigo entender o que motiva alguém a copiar (copiar do verbo Control C Control V, não se inspirar em uma notícia já dada) uma matéria – pressa, preguiça, falta de talento, falta de saco, entre outros fatores – não consigo conceber, na minha cabeça torta, qual o sentido de se plagiar um artigo, especialmente os que versam sobre sentimentos.

Citando novamente o Rossit, que foi brilhante em seu twitter ao declarar que inventamos uma nova forma de tunga, a dos sentimentos alheios, não consigo entender qual o sentido em se apropriar do conteúdo produzido por outra pessoa, de forma pessoal.

Oras, um post publicado em um blog que fala sobre a vida de uma determinada pessoas – ao que me parece, foram copiadas cartas da jornalista Leonor para seu filho – são tão pessoais que não admitem cópia. Embora os sentimentos sejam universais, a forma de expressá-los é extremamente pessoal.

Veja bem, não que Leonor tivesse descoberto a pólvora: muitas pessoas antes dela, e provavelmente muitos milhões depois, colocarão seus sentimentos em cartas. E, como os sentimentos são universais, a temática poderá ser repetida. Mas copiar a forma que ela utilizou para dizer o que sentia me parece algo extremamente vazio. Traduzindo para o popular bem escrachado, é gozar com o pau alheio. Seria o mesmo que conquistar alguém – em época de boiolagem recorde, tanto faz se homem ou mulher – utilizando um poema não escrito pela sua pessoa, e sem avisá-lo de que o “eu te amo” não saiu de sua boca.

Já o seria, aliás, se a cópia fosse feita com citação dos créditos. Se assim fosse, algo como “faço minhas as palavras dessa jornalista Leonor, que descreveu com perfeição o que eu mesmo sinto” seria aceitável.

O que aconteceu, pelo que fiquei sabendo, não foi exatamente isso. E me causou perplexidade.

Convivi com a Gabriela na redação da Gazeta por aproximadamente meio ano. Nesse período, não tive sequer um problema com ela. Costumávamos trocar figurinhas e sugestões de pauta, inclusive, já que, na época, eu também fazia polícia para o programa Rota da Verdade, na rádio Clube AM. Talvez por isso minha surpresa tenha sido tão grande.

Infelizmente, não consegui falar com ela sobre o assunto, de forma que minha impressão pode ser parcial. Anyway, sob os riscos de ficar ainda mais queimado na imprenCinha de Ribeirão – será que isso é possível? – farei minhas considerações.

A impressão que esse episódio todo me passou foi a pior possível. Não pelo plágio, não pela cópia, mas sim pelas reações. Errar é humano, e, na minha opinião, quando se faz uma cagada homérica, a melhor coisa é assumir o erro, baixar a bola, colocar a viola no saco e seguir em frente.

Quando a coisa estourou, o melhor a fazer, ainda que reservadamente, era: “Errei, pisei na bola, perdão, não acontecerá de novo”. Seria mais justo e, se fosse público, seria ainda mais apreciável o gesto.

Palavra de quem já errou muito, mas que nunca se negou a reconhecer o erro, né Adriana Matiuzo? Né, Carol?

Enfim… lembrando que é só uma impressão minha: o lamentável dessa história toda é que a cópia e o plágio parecem ter sido feitos com o pior dos instintos: conquistar o reconhecimento e a admiração de uma série de pessoas com a forma de expressar um sentimento que não era, em absoluto, dela.

Uma pena. E altamente lamentável.

Em tempo: um passarinho soprou que isso custou a ela o emprego na EPTV, onde era editora do site. Não confirmei.