A Matemática do Poker

O poker, meus caros, é um esporte fascinante. A cada dia, em cada jogo, novas situações testam o raciocínio e a lógica. Com pouco mais de um ano de jogo mais constante, posso garantir que o mais desafiador de estar em uma mesa é ter que se adaptar, de forma rápida, às mais variadas situações.

Jogando um torneio com entrada de R$ 5 e recompras de R$ 5, deparei-me com a seguinte situação de jogo. Aliás, conto primeiro o caso para em seguida ilustrar a matemática intrincada por trás de cada jogada.

Estávamos em oito jogadores na mesa e eu tinha uma quantidade de fichas confortável (perto de 35 mil). Era o último período de recompra e havia dois jogadores com o stack mínimo na mesa, que era de 4 mil fichas.

Com blinds em 500/1000, eu sou o big blind. O primeiro a falar, que tem a sábia alcunha de Pastel, sem dó das fichas, coloca suas preciosas 4 mil no meio do pano verde. A mesa segue em fold até o small blind, o seu Bruno, o baralhão, conhecido pelo seu estilo, digamos, mais arrojado de jogar. Com 4 mil fichas, ele também vai all in. Minha vez.

Aplico os rudimentos de matemática que conheço e olho para minhas cartas; Vejo uma mão digna, um Dez Dama do naipe de copas. Chamo a aposta.

Pastel mostra um belo par de ases e sonha em triplicar. Honestamente, não lembro a mão do Bruno, mas não era nada espetacular. Mostro minha mão e aviso o Pastel:

Eu e minha indefctível boina do mal

“Fica tranquilo e faz o rebuy. Quebramos seu par de as”

E quebramos mesmo

Logo no flop, viram as cartas mágicas: J, K e 9. Faço sequência e o turn e o river acabam sem grandes surpresas. Levo 12 mil fichas, além do prazer inenarrável de quebrar um par de ases e ainda poder cornetar o Pastel.

Essa foi a jogada e o resultado. Agora, vamos à matemática, que é bem mais complexa e interessante.

Depois de ouvir, em tom de galhofa, o adjetivo Baralhão – na gíria do poker, quem joga com mãos ruins e, contra as probabilidades, acaba vencendo – resolvi buscar a redenção na matemática. Analisem o raciocínio, uma verdadeira pérola que contradiz plenamente quem insiste em classificar o poker como jogo de azar.

Chamei com cartas piores, é um fato, e levei um pote contra as probabilidades. Mas meu call foi correto. Veja porque:

Primeiro, eu não tinha como saber que o Pastel ostentava, orgulhoso, um belo par de as. Ele já havia ido all in com mãos terríveis para explorar a fraqueza dos demais jogadores. Existe sempre a chance de um blefe para roubar as fichas que estão no pote, que são de 10%. Mas vou desconsiderar esse fator e colocar que, na minha leitura de jogo, eu coloquei o menino com cartas muito boas, as melhores possíveis. Isso significa que, no range de mãos que coloquei pra ele, Pastel poderia ter as seguintes mãos:

AA, KK, QQ ou JJ, todas mãos muito fortes e bem na frente da minha
AK, AQ, AJ – mãos fortes e que estavam à frente da minha

Logo depois de Pastel ir all in, o seu Bruno coloca suas 4 mil fichas e paga o all in. Naquela situação de um torneio, onde o período de recompra estava no fim, faria sentido pagar com um leque de mãos muito grande na posição dele. Ou dobra-se as fichas ou faz-se um rebuy. Fora isso, o seu Bruno é um jogador mais solto, que aposta e paga com mãos mais fracas do que eu, por exemplo, faço. Dessa forma, coloquei o menino no seguinte leque de mãos:

Qualquer par, de AA a 22
Qualquer A com figura: (AK, AQ, AJ)
Qualquer K com kicker acima de 9 (K9, KT, KJ, KQ)
Qualquer Q com kicker acima de 9 (Q9, QT, QJ, QK)
Qualquer J com kicker acima de 9 (J9, JT, JQ, JK)
Conectores naipados a partir de 89: (89, 9T, TJ, JQ, KQ)
Conectores a partir de TJ (TJ, JQ, KQ)

Agora, a parte divertida. Segundo os softwares que analisam mãos e a probabilidade matemática de cada mão vencer, o range do Pastel venceria em 47% das vezes. Meu TQ naipado levaria em 30% das vezes e as infinitas probabilidades do seu Brunão aparecem com 23% de chances.

Agora vem a análise do custo benefício.

Nesse caso, o retorno, caso eu contrariasse as estatísticas e vencesse, seria de quatro fichas para cada uma que eu investi, já que eu precisava colocar 3 ,il fichas para ganhar 12 mil…. Com 30% de chance, significa que eu acerto essa mão (lembrando que é contra o range, não contra o AA) três vezes em dez tentadas. Para jogar essas dez vezes, eu teria que investir R$ 30 mil fichas. (pagando 3 mil por vez).

Se eu acerto e levo três vezes, significa que meu retorno nessas dez vezes será de 36 mil fichas. Saio no lucro 6 mil fichas, por isso o call é válido. O odd das fichas era maior que o odd das cartas. Valia a pena pagar com qq carta do tipo 2, que era o meu caso. Dava pra pagar até com 9T naipado, se não me engano, pq as percentagens não se alteram demais.

Deixando a cornetagem de lado, essa mão serve como exemplo de como esse lance das odds podem fazer diferença em um jogo. Se o Brunão folda, eu foldaria também. Mas como ele foi all in, e o all in dele era exatamente o seu, o pote tornou-se matematicamente atrativo, embora soubesse que eu estava com certeza atrás de um de vocês e muito provavelmente atrás dos dois.

Ajudou muito o valor do all in ser baixo em comparação com minhas fichas. Eu não entraria nesse se tivesse que comprometer, por exemplo, mais de 20% do meu stack.

Mas vamos pensar na hipótese de fold do Brunão para ilustrar. É ai que a gente vê como um pequeno detalhe muda tudo no poker.

Nesse caso, o pote ficaria com 5,5 mil fichas e eu teria que colocar mais 3 mil para disputar um pote de 8,5 mil. Assim sendo, minhas odds ficariam em 1 para 2,8. Refiz as contas e vi que, jogando com os mesmos ranges de mãos e minhas cartas, as percentagens de vitória seriam de 67% contra 32%.

De cem vezes, acertaria 32, Então vamos às contas:

Em cem vezes, investiria 300 mil fichas para jogar o pote. Vencendo 32, lucraria 272 mil, o que tornaria o call matematicamente incorreto.

Vejam que, embora, nesse caso, eu levei a mão, não é isso que torna meu call correto. É a expectativa matemática de longo prazo. Ainda que eu tivesse perdido essa mão, essa era uma jogada que deveria ser feita porque, no longo prazo, é lucrativa.

Da mesma forma, muitas pessoas ganham significativas somas, em dinheiro ou fichas, chamando com probabilidades erradas. Acontece, é poker, mas não significa, por isso, que a jogada é matematicamente correta.

Eu, eu, eu, o Franca se…

Vamos e venhamos, Franca não tem lá muito do que se orgulhar. É uma cidadezinha até simpática, perdida um pouco pra lá de onde Judas perdeu a bota.

Para os mineiros – digo de cidades ainda mais perdidas, como Claraval, Ibiraci e Capetinga, pra citar as menos expressivas – os francanos são os babacas paulistas.

Para os paulistas, os francanos são aqueles mineiros idiotas de São Paulo.

O principal passatempo dos francanos, claro, é dar uma passadinha em Ribeirão para ver o que há na capital. Bairristas ao extremo, adoro fingir que odeiam Ribeirão, mas não abrem mão das baladas, do comércio, enfim, de Ribeirão Mesmo. Curioso é que, enquanto a maioria (eu diria 99,9% dos ribeirão-pretanos nem sabem da existência de Franca), lá o inverso ocorre – 99,9% dos francanos adoram colocar Ribeirão no centro de suas vidas, ainda que com certo ódio e recentimento.

Enfim, mas parando de divagação…

Franca é conhecida – em termos – no Brasil por três fatos pitorescos. Primeiro, e disparadamente o mais relevante, é a cidade onde as mais bizarras coisas acontecem. Lá, os crimes são mais absurdos, as pessoas mais sem noção, as ocorrências mais caricatas. Já descrevi em alguns posts como funciona isso, mas basta dizer, apenas para ilustrar, que foi lá, naquela cidade adoravelmente sem nõção, que um homem foi preso ao manter relações sexuais com um muro – sim, era chapiscado!; uma mulher morreu mamada, afogada em uma poça de água de 5 cm de profundidade e um prefeito saiu chutando cones em pleno centro da cidade. Detalhe: tudo isso com três meses de intervalo.

A segundo motivo é a indústria calçadista. Procure no goole pra ver: digite Sapateiro+moto+morte e verá que, de dez resultados, oito serão obrigatoriamente sobre Franca do Imperador. O que demonstra duas coisas: sapateiro é uma merda. Sapateiro e moto, uma merda dupla. E Sapateiro, dinheiro e moto = cerveja na tampa e morte certa.

Mascote do COC Basquete, o eterno matador de Franca

O terceiro é o basquete. A cidade é uma das poucas no Brasil onde realmente se existe uma cultura do esporte. Os públicos do basquete lá são muito superiores aos do futebol. é uma espécie de orgulho, um baluarte. O orguolho do francano é o basquete. É como se, através da Bola ao Cesto, toda uma cidade justificasse sua razão de existir. Nessa terra, Hélio Rubens é um mito, uma lenda, um guia.

Acontece que, desde o surgimento do COC Basquete, Franca nunca mais apitou nada. É a realidade, feliz ou infelizmente. E os francanos, derrotados em seu baluarte, sua fortaleza, simplesmente perderam a cabeça. o COC durou pouco – tempo suficiente apenas para humilhar os francanos, mas as marcas são eternas.

Tanto que o mais conhecido filhote do COC, o vulgo Brasília, assumiu o ônus e também o freguês. Especializou-se em ganhar títulos em cima do Franca. É a morte para os francanos, especialmente se levarmos em conta que boa parte do elenco do Brasília atuou por Ribeirão. Ah, e nem gosto de basquete, embora tenha sido um armador de razoável competência em tempos escolares…

Mas confesso que ver o francano humilhado em um dos seus poucos motivos de orgulho é uma ceninha bacana de ver. Mesmo eu gostando da cidade.

Em tempo, o Brasília fechou o playoff final do Novo Basquete Brasil (NBB) em 3 a 1 contra o Franca, em Brasília.

Rabiscos

There is no hope
é a frase na cabeça
mania boba de inglês

Tão piegas
que lembro de mim mesmo
há mais de uma década

paro por segundos que parecem horas
nem parece que escrevo
como um estranho, rabisco

Maldita reforma ortográfica

há tempos ausente, sinto tara
vontade, tesão,necessidade
de deixar as palavras brotarem

sem rimas, sem luxo, sem sofisticação
sem decassilabos, sem livres, sem brancos
apenas letras

Escrevo, a angústia
segue
indeciso, eu também

Sempre confundindo os porquês

sentimento do mundo
transborda
mas não sei se é emoção

ou meramente a moléstia
dos últimos dias
com sintomas diferentes

na indecisão, perco o fio
chama o MSN e a profissão:
repórter, sem terminar

é o fim

Novidades

Aviso aos leitores desse conceituado – ou não – blog que, nas próximas semanas, haverá publicações aqui que poderão causar certo estranhamento. Ressalto que cada uma delas terá uma uma explicação plausível. Mas, honestamente, o bem pouco resto de dignidade que ainda permito manter impedirão certamente que eu comente.

Basta dizer que, ao longo dos anos, ferrei com muitas coisas – incluindo minha família e minha carreira – por sustentar meus pontos de vista, mas minha vocação para Libero Badaró certamente não valeu a pena. Preferirei Galileu.

Como o que não tem remédio, remediado está, vamos tocando a vida.

Boa mudança no jornalismo da EPTV

Que o jornalismo da EPTV Ribeirão é, digamos, mais light do que o da emissora que retransmite, não há dúvida. Poucos temas ligados à política, muita matéria do tipo cascata, aquelas famosas amenidades que não servem para nada, exceto para tomar o tempo. Mas tenho observado, da poltrona de casa, algumas mudanças alvissareiras – aprendi esse termo com o ministro do Supremo, Mello, e adoro socar ele em frases desconexas.

Muito alvissareiras, diria eu.

Vale dizer que a EPTV Ribeirão foi idealizada e concebida com a mentalidade de jornalistas como João Garcia Duarte, hoje no Jornal A Cidade. Sem entrar em grandes méritos, é a filosofia da não complicação: não tocar em feridas, em ninhos de abelha, investir em histórias locais curiosas e aprumar tudo com um tratamento gráfico privilegiado.

E foi assim que a EPTV Ribeirão fez ao longo das décadas, mais conservadora que a própria EPTV de outras praças e que a Rede Globo, ambas situadas bem à direita quando o assunto é conservadorismo.

Mas enfim, sem divagações. Vamos ao que me motivou a escrever.

Acontece que, de uns três anos pra cá, a mudança que se nota na cobertura jornalística da EPTV Ribeirão é muito significativa. Positiva mesmo. Por uma série de fatores.

O primeiro deles é que, mesmo quando a cidade teve destaque esportivo nacional, com o Botafogo disputando a primeira divisão do Campeonato Brasileiro e do Paulista, além do COC Basquete, que foi campeão nacional, a EPTV insistia em fazer um jornalismo esportivo meia boca. MUITO, mas MUITO ruim mesmo. Repórter esportivo, ou que sabia fazer esporte, não existia. Via de regra, o que se via era imagens dos gols da dupla Come-Fogo e, raramente, algo do basquete. Matéria muito ruins, por sinal.

Não sei as razões dessa realidade, mas o que acontecia é que, ao contrário da EPTV Campinas, por exemplo, que tem uma gama respeitável de profissionais ligados ao Esporte, esse aspecto do jornalismo era encarado por aqui como algo menor. Dava pena. O lado positivo é que isso começou a mudar.

Não que hoje a cobertura da EPTV no esporte em Ribeirão seja maravilhosa. Não é, e passa bem longe disso. Mas, na comparação com o que se fazia há cinco anos, melhorou quilômetros. Hoje há matérias. Se não fantásticas, pelo menos corretas. Pode-se dizer que os presidentes e diretores da dupla Come Fogo conhecem os repórteres. É o primeiro sinal de que a coisa vai bem, já que a presença do repórter no local é essencial para dar qualidade à cobertura. Há muito a avançar, mas a iniciativa de ter no quadro repórteres que sabem fazer esporte, além de profissionais competentes na chefia dessas áreas, faz a diferença.

Infelizmente, porém, as outras emissoras locais de televisão não embarcaram nessa onda. A cobertura da TV Clube em esportes é próxima a zero e, quando rola alguma coisa, é protocolar e medíocre. Idem para SBT, com uma equipe reduzidíssima, e mesmo Record.

A outra boa notícia no jornalismo da EPTV é que, de alguns anos pra cá, começou a haver mais espaço para contestações e questionamentos. Claro que nada é feito de forma direta, e política ainda é um tema praticamente inexistente nos produtos jornalísticos da emissora. Mas começam a pipocar, aqui e ali, reclamações da população sobre aspectos práticos da desadiministração pública da cidade. Não é muito, e é meio óbvio – qualquer um que viva em Ribeirão sabe a porcaria que as ruas da cidade estão, ou o pra lá de péssimo atendimento na saúde, ou ainda o caos que é a situação da dengue na cidade. Há alguns anos, no entanto, isso chegava com muito menos força. Mais uma vez, estamos longo do ideal em cobertura jornalística, mas muito a frente do que rolava nos últimos cinco anos.

Sobre a qualidade técnica da EPTV, nem preciso dizer. A qualidade de programas voltados ao que eu costumo chamar de alma caipira, como Terra da Gente, além dos documentários, é impressionante. Acho que ninguém, no Brasil, faz algo tão bacana nesse segmento.

No atual panorama da comunicação em Ribeirão, que está pelo menos dois degraus abaixo do nível jornalístico que encontramos em cidades do interior paulista como São Paulo, como São José do Rio Preto, Bauru e São José dos Campos – isso sem falar em Campinas, mais na frente ainda – essa é uma excelente notícia. Só não pode ficar só nisso.

Sétimo no Ribeirão Poker Tour – bom resultado, péssima jogada

Provavelmente o dia de hoje, e uma jogada em especial, vai ficar me assombrando por alguns dias. Por isso mesmo, resolvi escrever pra ver se, analisando racionalmente, me desapego de remoer uma puta comida de bola que dei no Ribeirão Poker Tour.

Mas vamos aos fatos.

Éramos dez jogadores na mesa final, e eu cai em sétimo. Premiação de 1/6 do que poderia ser se eu fosse o campeão. Mas esse não é problema. Vamos analisar.

Com um total de 120 jogadores, chegar na mesa final foi uma vitória. Coroou 14 horas de jogo. Mas é claro que, tendo a oportunidade de jogar, queria mais.

Analisando a quantidade de fichas e os jogadores, achei que terminar entre os cinco era uma possibilidade bem concreta. Não estava errado. Basta dizer que eu considero o resultado extremamente positivo, Mesmo. Só me incomoda o fato de como deixei o torneio.

 Joguei o torneio de forma sólida desde o início. Foldei muitas mãos que a maioria jogaria. A10, AJ, par de dez, par de 7, par de 5. Na mesa final, comecei jogando minhas cartas, eliminei dois jogadores que estavam mais short e por uma dessas coincidências que só o baralho nos dá, fui em dois all in com o Caniggia, o menor stack do torneio, ambos em condições de vencer – um KQ contra A 10, sendo que fiz dois pares no flop, e outra com par de dez contra AJ. Nas duas, ele levou. Mas nada que diminuísse consideravelmente meu stack. Eu, que comecei em segundo com 369 mil fichas, cheguei ao primeiro intervalo ainda em segundo, mas com 700 mil. Um excelente avanço, que me deixou bem animado.

Na volta do intervalo, cometi um erro que julgava já ter eliminado do meu jogo. O único erro, imagino, na mesa final, e que me custou o torneio e a chance de brigar mais.

Vale dizer que as cartas passaram a não bater. Muita bofeira, algumas cartas médias fora de posição e uma infinidade de as com kicker pequeno. Ignorei mãos parecidas com estas durante 14 horas no primeiro dia. Mas, como a mesa estava muito agressiva, e os potes estavam sendo empurrados com praticamente qualquer mão, resolvi que iria jogar ainda mais duro para partir pra cima com amplo favoritismo na mão.

Infelizmente, pra mim, não consegui.

Vale a pena um registro. Fernando Mão, jogador de poker, um dos meus antagonistas no Pocket Aces e um jogador a quem respeito, havia dito uma vez sobre meus calls insanos. Algo como bluff call. Chamar mãos que sei estar perdendo, e muito, sem motivo ou razão. Concordei com ele e comecei a trabalhar esse detalhe foda no meu jogo. E diminui muito os calls insanos. Nos últimos meses, não lembro de ter feito nenhum de relevância. Consegui inclusive segurar bem a onda, evitando até apostas com mãos médias em situações extremas.

Mas enfim, o que me tirou foi um call insano.

Jogando extremamente conservador, e ajudado pelas cartas, que não vinham, fiquei pelo menos 25 mãos sem agir. A melhor mão que deixei foi um AJ naipado fora de posição. Cofrinho, campeão paulista de 2009, estava duas posições antes de mim. E, como sempre, tentando roubar minhas blinds.

Ganhei ao menos cinco potes dele respondendo aos roubos com aumentos, ou esperando para ver o flop e, ao bater minha carta, fazer a aposta correspondente. Uma mão – apenas uma – ,mudou isso.

Com blinds em 20 mil, Cofrinho, o último a falar, aumentou para 55. Já tinha colocado 20 no pote e imaginei que poderia tentar ver o flop. Detalhe: não fiz isso o campeonato inteiro. Paguei apenas uma mão com A7, naipado.

Impressionante que fiz a leitura perfeita dele, mas fiz tudo ao contrário do que li. Com um raise pequeno, ele sabia que as chances de eu pagar eram grandes. Se não quisesse ação, poderia ter empurrado um all in ou mesmo uma aposta maior. Meu alerta, atento, me mandou largar a mão ali, mesmo, mas pensei, bobo, que um ás no flop poderia ser rentável. E paguei.

Até ai, trata-se apenas de uma decisão menor, que não mudaria o andamento do torneio. Ainda estava entre os quatro maiores stacks e podia me dar o luxo de uma mão pra lá de marginal, mesmo sabendo que a decisão correta era largar.

Foi o primeiro erro, mas de longe o menor, dessa mão.

O flop veio Q37, sem nada de naipes. Eu tinha A3, fiz um par. Na mesma hora, instintivamente, imaginei que estava atrás. Mas era a mão errada, na hora errada. Dei mesa e o Cofrinho fez uma aposta de 55 mil. Uma aposta curta, implorando pra ser chamado. E o meu radar apitou forte, mas eu ignorei. Paguei.

Naquela hora, mesmo meu instinto me dizendo que ele estava muito na frente, decidi representar uma dama na mão. Pensei, comigo mesmo, mil vezes que QQ ou mesmo AQ, além de qualquer par entre AA e TT, eram possibilidades. A única opção que me colocaria na frente era algo como AJ ou AK. Algo extremamente improvável, especialmente pela forma como ele vinha jogando essas cartas.

Vem uma nova dama. Eu meso, ele beta a mesma aposta, eu resolvo fazer o move mais absurdo do torneio, Volto 200 mil, na tentativa de tirá-lo do pote. Ele volta all in, com um valor semelhante ao meu. Pouco maior.

Me sobravam nesse momento 140 mil fichas. Mais do que suficiente, diga-se, para que eu decidisse fazer a única coisa certa e largar a mão.

Vale dizer que alguns jogadores, que começaram na casa dos 60 mil, estavam vivos no torneio. Eu sabia que estava perdendo, e que nenhum out poderia me salvar. Nem o A. Mas, para completar o tilt, paguei. Ele mostrou, orgulhoso, um par de QQ nas mãos. Fez uma quadra. Resumindo, uma mão jogada de forma estúpida, a única que vacilei no torneio, me fez sair do torneio de uma forma que não vai me descer na garganta.

Veja, não trata-se de ter saido. Se eu fosse nessa mão com o Cofrinho de AA ou AK e ele quadrasse a dama, acontece, é coisa do jogo. Sairia derrotado, mas não puto comigo mesmo. Mas enfim, o fato é que, na hora decisiva, não joguei meu melhor jogo. Tive um surto e voltei a ser o Call Insano que não dava as caras há muito tempo.

Fica a sensação terrível que poderia ter chegado bem mais longe. Mas, pior ainda, fica a sensação de que uma bobeira colocou horas e horas de jogo paciente e equilibrado a perder. Uma pena e um problema, já que essa jogada absurda não vai me sair da cabeça pelos próximos meses.

Falando com o Bruno Addunção, um dos organizadores do evento, no pós torneio, contei a jogada e ele foi polido o suficiente ao dizer que uma jogada muda o torneio. É verdade, mas eu fiz questão de dizer que joguei absurdamente errado a mão. Ele comentou que, sendo o primeiro torneio maior que jogo ao vivo, o resultado foi bom.

Concordo.

Imagino também que, em uma situação parecida, no futuro, esse evento me ajude a controlar os instintos absurdos e segurar a onda. Tomara. Se ajudar no aprendizado, está valendo.

Na final do Ribeirão Poker Tour

Caras, essa noite vai ser díficil de esquecer.

Depois de 14 horas de poker, estou entre os dez melhores jogadores do Ribeirão Poker Tour, torneio que reuniu mais de 120 pessoas no hotel JP, em Ribeirão. O jogo começou às 14h; cheguei às 14h40 e deixei o local às 3h30. Cansativo, mas liindo.

As mãos bateram, minha imagem foi bem construída e, depois de muitas jogadas, passei para o dia decisivo com o segundo maior número de fichas. O décimo leva R$ 450, o primeiro R$ 7 mil. Pequena diferença… rs

O dia de ontem foi marcado por algumas situações que, por serem novas, trouxeram intensos sentimentos. Joguei o que pode ser encarado como meu melhor jogo, tranquilo. Desde o começo, fui vencendo etapas sequentes que me impunha durante o jogo, ganhando gradualmente confiança.

A mesa final acontece hoje, domingo, às 15h. Vou sem pressão e espero apenas fazer o meu jogo. Veremos o que a tarde nos reserva.

O jogo de ontem, na minha opinião, teve três mãos emblemáticas para mim. Senti que tinha chances concretas de chegar entre os melhores quando restavam algo em torno de 40 jogadores. Tinha, nesse momento, uma imagem muito sólida na mesa, levando potes sem contestação. Optei por jogar firme, com mãos de boa qualidade, sempre mostrando aos jogadores minhas cartas. Embora não seja usual, funcionou: depois de casar com o par de damas (sempre elas!) – foram cinco durante a noite – os jogadores perceberam que se envolver em mãos comigo era mais duro do que com os demais jogadores.

Isso foi suficiente para me deixar entre os 30 melhores. Ai, por volta das 23h, aconteceram duas coisas que foram importantes na minha história nesse torneio: veio para a nossa mesa o Cofrinho, campeão paulista de poker. Embora seja uma grande bobagem, jogar com um campeão como o Cofrinho dá aquela pesada. Ele chegou chip leader, montado em fichas. Decidi mostrar o meu jogo, sem medo.

Logo em sua primeira mão, ele subiu, agressivo, e mostrou AK. Ninguém contestou, claro.

Na segundo, o mesmo aumento agressivo. Veio KQ, voltei um tribet nele… Ganhei um belo pote, pois ele não pagou. Na minha cabeça, fiquei pensando: caráleo, dei a volta no campeão paulista de poker. E levei.

Mas não foi a única.

Poucas mãos depois, ele faz o aumento agressivo, 4 BB. Eu aumento de novo, dessa vez com AK. Ele folda e eu mostro. Nessa hora, minha imagem na mesa não podia estar melhor.

Nessa altura, faltando 18 pessoas para o dinheiro, eu tive noção que poderia chegar.

Mas o baralho castiga, e logo eu iria saber disso. Nessa altura, tinha quase 250 mil fichas.

Seguimos jogando até que restaram apenas 18 jogadores. Oito precisavam cair para que o dia fosse encerrado. Sono, dor de cabeça, estresse, fome,e enfim, tudo que podia prejudicar a concentração estava lá. Era preciso cuidado, mais eu estava confiante.

Até que mudou tudo.

Sai com AQ naipado. Boa mão para subir. Acontece que, antes de mim, um cara que estava com poucas fichas fez um aumento para 25 mil. Restaram pouco mais de 50 mil no stack dele. Ao invés de pagar e ver o flop, o que seria a manobra usual, resolvi, talvez com excesso de confiança, tentar ganhar o pote ali mesmo. Voltei 60 mil na aposta, forçando que os outros jogadores largassem a mão. E forçando o outro jogador a ir all in.

Ele tinha AK, naipado. Copas.

O showdown veio com K e, no river, ele flushou. Dobrei as fichas do short stack e ao mesmo tempo reduzi minhas fichas a perigosos 180 mil. Mas tudo pode piorar.

No pote seguinte, blinds em 3/6 mil, com K7 naipado, de ouro, resolvi que era hora de fazer um move. Aumentei para 25 mil. Um cara, que, depois, viria a ser meu antagonista, voltou all in. Lamentando a bobeira, larguei a mão e vi meu stack chegar ao menor nível das ultimas horas, algo em torno de 160 mil fichas.

Joguei mais algumas mãos, perdi mais algumas fichas, mas nada de relevante aconteceu pelas próximas  mãos. Apenas o total de jogadores foi caindo. Dez teriam a honra de voltar no domingo. Estávamos em 14. E eu perigosamente perto das últimas posições. Estava confiante, mas sabia que, com os últimos adventos, eu só poderia jogar com mãos giantes.

E, como manda o baralho, ela veio logo.

No meio da mesa, saio com AK naipado. Copas. Pra mim, é o naipe que mais bate flush. Mas não pensei nisso. Era a mão que eu precisava.

Com blinds já em 8 mil, alguém antes de mim resolve me ajudar e sobre para 25 mil. Podia pagar para ver e esperar o flop, fazer um aumento significativo para isolar o pote ou ir all in e impedir os jogadores de entrar… O risco é que, com 4 pessoas para falar, alguum par poderia pagar. Estávamos perdo da bolha. E eu, sem pensar que minha história no torneio poderia acabar ali, empurrei todas as fichas no pano verde e rezei para não ser pago.

Rezei, mas fui. Pelo mesmo cara que havia voltado a casa contra mim quando eu subi de K7 naipado.

Como era natural, todos foldaram. Nesse momento, achei que estava contra um par, talvez QQ, KK ou AA. Aventei a possibilidade do AK, o que desejava demais naquela hora. AK era a garantia de ganhar algumas fichas e permanecer no jogo. Mas o baralho tem seus caprichos e mostrou que nem sempre é assim.

Meu adversário mostrou AK napiado, espadas. E, na batalha das cores, haveria surpresas.

Não lembro as cartas. Mas o flop veio com uma espada e uma copa. Nada.

Eu em silencio, quase rezando. E o turn trouxe uma copas. Arreipei. Quase em silência, comecei a bater na mesa, pedindo… copas, copas, copas… Não ouvia nada, ninguém, apenas pedia copas.

Vem, copas, vem, copas, vem copasssss

E o baralho, dessa vez, me ouviu. Veio copas. Só lembro de ter gritado, muito alto, alguma coisa que não recordo.

O jogador que tinha ido all in contra mim e vencido definiu. “O mesmo AK, que, comigo, te tirou as fichas, te trouxe de volta”, Nada mais certo.

Dobrei minhas fichas, entrei nas 300 mil fichas e voltei ao jogo.

Nesse momento, o cansaço tomava conta. E as pessoas continuavam a cair, éramos em 12 agora, e apenas dois precisavam ir pra casa. Na outra mesa, um caiu. Estávamos na bolha.

Depois de algumas jogadas protocolares, onde sequer entrei nas mãos para evitar decisões difíceis, estávamos em 11. Um para cair e eu desejando ardentemente o fim do dia. Queria cama.

Um acordo providencial fez com que o 11 colocado recebesse premiação de R$ 200. Pronto, a bolha não existia mais, mas era preciso que alguém caisse para que a mesa final fosse definida.

E ai entra em cena minhas poderosas damas. Pela quinta vez na noite, fui brindado com QQ. E eu, como disse na mesa, não costumava gostar de jogar com as senhoras.

Do meio da mesa, o cara com stack mais curto vai all in, com 60 mil fichas. Pedi a benção aos deuses do baralho e voltei all in, para isolar. Todos largaram e meu antagonista mostrou um par de 7. Sem sustos, as senhoras seguraram e estava formada ali a mesa final.

Com quase 400 mil fichas, sou o segundo. Agora é jogar o jogo.

Uma prova, por sinal, que AA não é fundamental, embora ajude. Não joguei com nenhum par de A, nem nenhum par de J. Foram 5 pares de dama e um par de KK. Não recebi muitas mãos maravilhosas, mas me virei bem com o que tive. E agora, senhores, é jogar pela glória.

Depois de alguns minutos papeando com o Cofrinho, que também está na mesa final, tento assimilar o que rolou. Foi meu segundo torneio maior, o melhor resultado e o maior premio nos torneios ao vivo. Muita coisa nova.

Pego minha moto, dou aquele bom e velho tranco pra pegar. Na saida, acelerando como doido, grito, comemoro, faço a festa. Estou na final.